Cristiano Araújo se desligou da Talismã

Como dito aqui há alguns dias e já especulado nos bastidores da música sertaneja nos últimos meses, Cristiano Araújo se desligou da Talismã e voltou a ter a carreira gerenciada apenas pelo escritório que ajudou a fundar, a Efeitos. Não, ele não vai para a Audiomix, como tanta gente, não sei por quê, perguntou depois do anúncio da rescisão. O anúncio da saída do escritório coincide com o trabalho de divulgação do novo disco, “Continua”, tema deste review. Na verdade, foi o único disco lançado por ele durante a parceria.

Analisar os vários elementos inerentes a este disco e ao seu processo de divulgação vai de encontro a muitos questionamentos, levantados principalmente após a rescisão. Cristiano Araújo vinha de um projeto anterior bem sucedido, o DVD gravado no Atlanta Music Hall, em Goiânia. Aquele disco já havia sido feito em parceria com a Som Livre, que também realiza a distribuição do novo disco. Ou seja, é burrice dizer (como eu vi alguns dizendo) que a divulgação de seu trabalho será prejudicada e suas chamadas nos intervalos da Globo serão interrompidas porque o Cristiano não é mais ligado ao cantor Leonardo. A parceria com a Som Livre aconteceu antes da parceria com a Talismã.

Outro ponto interessante e que demonstra mais uma vez o vergonhoso desconhecimento do público e imprensa paulistana com o que se pratica na música sertaneja ao redor do Brasil é o velho “Mas ele só ficou conhecido depois que foi para a Talismã”, argumento defendido pelo pessoal de São Paulo. Ora, é de conhecimento geral que a agenda do Cristiano Araújo já era bastante sólida e seu público bastante fiel, mesmo antes da parceria. A música “Efeitos” já havia lhe garantido um grande sucesso junto ao público, que se manteve com músicas como “Fazendo Bará Berê” e “Você mudou”. E todas elas ainda têm força para ajudar a manter a agenda, mesmo após tanto tempo. Há todo um país fora da cidade de São Paulo e da mídia televisiva, ao contrário do que pode achar a galera de lá.

O novo disco, “Continua”, que até então serviria para consolidar a sua parceria com a Talismã, acabou ganhando uma outra missão. Agora, Cristiano Araújo precisa, com esse disso, provar que ainda é capaz de dar seus próprios passos  sozinho com a Efeitos, para os contratantes e demais profissionais que possam porventura duvidar disso.

Como eu já havia mostrado nas redes sociais, estou com uma pilha de discos acumulada para analisar. E por incrível que pareça, não tenho escutado nenhum deles antes de escrever a respeito, até para manter minha opinião intacta na hora de colocá-la em texto, como agora. Cheguei a ouvir apenas a versão não-finalizada do disco, que havia vazado meses atrás, mas a versão final ainda não. Depois de ouví-la, posso enfim dizer que o trabalho continua sendo bem conduzido.

O novo disco continua, assim como o DVD, respeitando uma fórmula que é essencial na condução do trabalho do Cristiano. Acontece que ele não é um artista “padrão”, com um público definido. Ele passeia com sucesso entre os diversos públicos da música sertaneja, seja o da balada, jovem, universitário, ou o que escuta rádio, as donas de casa, ou trabalhadores de profissões mais populares. Vai da classe A à classe E. E seu repertório traz músicas que agradam tanto um lado quanto o outro, o que é algo difícil de se fazer.

Para a parcela mais despreocupada do público, que prefere canções mais imediatas, de festa, o novo CD tem momentos como “É só chegar e beijar”, “Escondidinho”, “Papai”, “Mete fogo nessa saudade e a ótima “Mandei um anjo”. Para a parcela mais ligada ao tradicionalismo, ao que o rádio toca, o disco traz canções como “Caso indefinido”, “Continua” e a versão “Princesa dos meus sonhos” (que deve causar o mesmo efeito da “Você mudou”). E entre canções que passeiam entre os dois públicos, é possível citar “Amor no carro” e a atual de trabalho, “Maus Bocados”.

Em comparação com o trabalho anterior, este CD é inclusive um pouco mais sutil nos temas das músicas. Não que o DVD fosse pesado”. É que como a “Bará Berê” foi um dos carros-chefe, acabou deixando essa impressão. Este disco, entretanto, traz letras mais sutis. A mais “pesada” é a “Ei, olha o som” (“Empinadinha”), que já havia sido lançada meses antes como single. No mais, o disco é um pouco mais sério no que diz respeito aos temas e arranjos.

Uma coisa inédita neste disco é que ele não traz no encarte a frase “Produzido por…”. É que ele trouxe, ao invés de um, vários produtores e arranjadores. Dudu Borges ficou responsável pela “Maus Bocados”. Bigair Dy Jaime por “Mete fogo nessa saudade”, “Caso indefinido”, “Continua”, “Mandei um anjo”, “Princesa dos meus sonhos”, “Amor da gente”, “Igual você não tem”, “Pedaços”, “Veneno” e “Empinadinha”. Blenner Maycom por “É só chegar e beijar”, “Entre quatro paredes”, “Sabe como me beijar”, “E agora”, “Papai”, “Sou nada sem você” e “Uma semana”. Diogo Vieira (da dupla Lucas & Diogo) e Wilibaldo Neto por “Amor no Carro”. E Thyeres Marques por “Escondidinho”.

Entretanto, ao invés de trazer uma bagunça de arranjos com ideias muito diversas, dada a ampla variedade de profissionais envolvidos, o disco acabou ficando bem regular faixa a faixa. Exceto pela marca inconfundível da sonoridade do Dudu Borges na música “Maus Bocados” e dos arranjos incríveis criados pelo Bigair para as músicas “Caso Indefinido”, “Continua”, “Mandei um anjo” e “Princesa dos meus sonhos”, fica até meio complicado definir quem produziu o quê neste CD. Mesmo porque a mixagem e masterização foi feita por um só profissional só (Claudio Abuchaim), exceto por uma canção (“Amor no Carro”, mixada e masterizada pelo Alexandre Gaiotto). Talvez até fosse a intenção, não deixar que esse disco ficasse muito com a cara de um profissional só, sei lá.

O que importa é que no fim das contas o disco acaba cumprindo muito bem seu papel. Não sei se deixará o Cristiano Araújo num patamar maior do que o que ele se encontra atualmente. Mas sem dúvida vai mantê-lo num status considerável de confiabilidade junto ao público, às rádios e aos contratantes. E talvez possa ajudá-lo a chegar num público que tem tudo a ver com ele, como o do Nordeste por exemplo, onde muita gente tem reclamado que ele ainda faz poucos shows. Com isso, dá pra responder à pergunta insinuada lá no começo do texto. Mesmo sem Talismã, será que o Cristiano continua dando conta do recado? Bem, o título do disco por si só já deve servir de resposta: “Continua”.